6.7.17

GEOGRAPHY OF REBELS
NOS ESTADOS UNIDOS

Neste ano em que comemoramos os quarenta anos d' O Livro das Comunidades, sairá a edição americana da primeira trilogia de Maria Gabriela Llansol, Geografia de Rebeldes (O Livro das Comunidades, A Restante Vida e Na Casa de Julho e Agosto), já anunciada no site da Amazon para Outubro na editora Deep Vellum, de Dallas, em tradução de Audrey Young, e com textos prefaciais de Gonçalo M. Tavares e do grande biógrafo de Clarice Lispector Benjamin Moser. 


22.6.17

A NOVA EDIÇÃO D' O LIVRO DAS COMUNIDADES

A terceira edição d'O Livro das Comunidades (Assírio & Alvim) está nas livrarias, vem acompanhada de uma série de colagens de Pedro Proença feitas especialmente para esta reedição, e mantém um posfácio de Silvina Rodrigues Lopes.
Faremos o lançamento deste livro seminal de Maria Gabriela Llansol, quarenta anos depois da sua primeira edição na Afrontamento, na próxima quinta-feira, dia 29, às 18.30h na Livraria Sistema Solar/Chiado (ver convite abaixo), com leituras de inéditos que documentam o olhar da própria autora sobre este seu «livro-fonte» ao longo da vida, por André Tavares Marçal e Catarina Real.



31.5.17

A IMAGINAÇÃO DO AMOR: LLANSOL E IBN 'ARABÎ

Organizámos para os dias 20 e 21 de Junho, com o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e a Sociedade Ibn 'Arabî de Murcia (Espanha) um colóquio com participantes de Espanha, Portugal, Itália e Brasil em torno da presença do místico ibérico Ibn 'Arabî na Obra de Llansol.


O anúncio do Colóquio, reproduzido a seguir, dá uma ideia do lugar desta figura na Obra de M. G. Llansol, e o programa permite ter uma noção do espectro de questões e ligações que se discutirão neste encontro da Faculdade de Letras de Lisboa. Na ocasião teremos um caderno especial que reune grande parte dos textos de Llansol sobre o místico da imaginação criadora e mais informação sobre as suas ligações com esse universo. E poderemos visitar, no dia 20 de Junho, pelas 12.45h a exposição afim do nosso tema, patente na Biblioteca Nacional, Árabes e Islão na Literatura e no Pensamento Português (1826-1935), comissariada por Fabrizio Boscaglia.
(Clique nas imagens para aumentar)




28.5.17

A PERMANÊNCIA NO MISTÉRIO
Llansol e Adua Guerra Santos



«Diálogo com Llansol»

Tivemos ontem mais uma sessão da «Letra E» do Espaço Llansol no MU.SA de Sintra, com a exposição de desenhos de Adua Guerra Santos largamente inspirados na sua leitura de Maria Gabriela Llansol. Pudemos ver uma conjunto significativo de grafites e de obras a cores, com títulos reveladores, como os das séries «Metanoite», «Talvez se chamasse Mistéria», «Divina proporção» e outras, e conversámos com o artista e a investigadora Rita Benis sobre a problemática do mistério, presente no texto de Llansol e nas obras de Adua.
Deixamos aqui, para quem não foi a Sintra, os textos que suscitaram o diálogo, que teve também intervenções de Maria Etelvina Santos e João Barrento:  as notas do artista a propósito desta exposição e passagens do texto introdutório ao caderno que fizémos para a ocasião, em que se situa esta problemática com especial referência à Obra de M. G. Llansol. E, naturalmente, algumas das obras expostas.

*


Adua Guerra Santos
A permanência no mistério


Reconhecer o mistério, identificar as manifestações do mistério, é também uma forma daquilo a que se chama «cair-em-si» (a nossa origem é o mistério primeiro). Maria Filomena Molder refere como possibilidades de alguém cair-em-si três exemplos:
- Experiência amorosa (ex.: confronto com a rejeição);
- Relação com a morte (ex.: morte de alguém próximo);
- Arte (ex.: estranhamento em relação a uma obra).
Algo que nos questiona existencialmente é sempre uma forma de cair-em-si (verdadeiro rosto do mundo, lugares onde se foi, lugares de onde se vem, a alma de cada ser). Uma das sensações mais fortes no cair-em-si éo estranhamento e a sensaçãode que está tudo por fazer, sempre esteve tudo por fazer (em relação a nós próprios e em relação ao mundo), um enorme sentimento de incompreensão («Chuva… tenho tristeza! Mas porquê? / Vento… tenho saudades! Mas de quê?» - Florbela Espanca). Nesses instantes há a passagem de um estado de inocência para a necessidade de um estado de experiência. Há um depois e um:

e agora?
E as alternativas são:
- Ignorar, esquecer, não dar importância é sempre uma possibilidade (a mais confortável, não é preciso fazer nada), há o pressentimento de que se entra num caminho sem fim e isso assusta… mas desconfio que a dúvida do que aquilo é, do que se é, permanecerá sempre na vida (estaremos sempre na busca de entender aquilo que não queremos conhecer).

ou
- «Deixar-se cair» e aceitar o Mistério, pressupor, como diz João Barrento, «a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. No momento em que essa intuição acontece dá-se também a entrada num segundo nível: a elevação da realidade apercebida a uma potência superior, a descoberta do mistério que há nas coisas. […] O mistério… está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva.»
O que mais me fascina em M. G. Llansol é essa elevação da realidade apercebida e a revelação na escrita da sua permanência no Mistério:
«Estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério».

«Metanoite»

*

João Barrento
Llansol: Os caminhos do mistério

«Mistério» significa, na sua raiz, algo que é da ordem do secreto – e do sagrado. Contrariamente ao enigma, com o qual se não deve confundir, o mistério tende para a iluminação, mas não para a (re)solução. No mistério, luz e trevas convivem sempre, em graus diversos, em perfeita correspondência com o mundo visível, «o desconhecido que nos acompanha» (vd. O Senhor de Herbais), e que a escrita ou a arte tentam permanentemente iluminar.  […]

O mistério é aí o da tensão criativa, de uma dialéctica dos opostos que não é a das oposições binárias simplistas, mas a da pluralidade da aparente unidade do mundo na sua superfície. […] Sabemos muito, mas ainda não sabemos disso, do modo de ser essencial das coisas, do mundo e de nós próprios. 
Em última análise, o mistério das coisas não existe fora delas, consiste simplesmente em elas serem, estarem aí assim, furtando-se indefinidamente ao nosso entendimento. Por isso o mistério, contrariamente ao enigma, que é sempre um problema em busca de solução, é eternamente diferido enquanto objecto de nostalgia. Objecto que pode ter muitos nomes, com contornos mais ou menos discerníveis no horizonte dessa nostalgia.

Em Maria Gabriela Llansol, o mistério pode, assim, ter por nome -Eus, restante vida, paisagem, mútuo ou ambo, cena fulgor, metanoite ou comunidade... Também pode ser o mistério ou a nostalgia do azul, imagem de uma completude ou perfeição daquilo que é o que é, e não exige explicação: «O azul é o sinal da esfera terrestre», «figura de contemplação» (cf. O Azul Imperfeito - Livro de Horas V, p. 360). O que acontece é que estaremos sempre nesta busca infinita e inglória de nomear o mistério, que é o inominável: porque vivemos entre a coisa (que «realmente» desconhecemos), a sua imagem (que é o seu fantasma) e o nome (que lhe passa ao lado). Mas palavra e imagem é tudo o que temos, e com isso teremos de chegar aonde pudermos.
Este, porém, é o ponto de partida de um «cratilismo» da linguagem, das linguagens, que pretende que a coisa é indizível. Mas há o outro, o de um orfismo que nos vem lembrar que as coisas estão aí para serem nomeadas. O mistério pressupõe então, como para Goethe ou Llansol, a possibilidade de intuir a luz nas trevas, na superfície aparentemente impenetrável do mundo. […]

A cena fulgor llansoliana é a manifestação desta dialéctica, muitas vezes não apenas bi-polar, mas com muitas gradações intermédias. E as grafites de Adua procuram também transmitir algo assim. Por isso, a relação artística produtiva com o mistério (que não é aqui já o das religiões, mas o do Ser) não é obscurecedora, mas traduz um aclarar progressivo e relativo das trevas (como Adua diz do seu trabalho). Relativo, porque um resto insondável permanece, tem de permanecer, já que a forma, plástica ou de linguagem, pode quando muito sugerir o informe, mas nunca revelá-lo ou identificar-se plenamente com ele.



«Talvez se chamasse Mistéria»

Se nos aproximarmos um pouco mais da prática de escrita e da visão do mundo de M. G. Llansol, perceberemos facilmente que para ela o mistério não está no inefável, em que não parece acreditar, nem numa qualquer espiritualidade mais ou menos esotérica (o olhar de Llansol é antes exotérico, interessa-lhe o visível). Mas também não se trata aqui de despir as coisas de qualquer mistério, à la Caeiro. O mistério para Llansol, a existir, está nas próprias coisas, no mundo que se oferece à decifração intuitiva, e não fora deles – quando muito, em mim, se por mim se entender um corpo, e não já uma interioridade romântica. Em toda a sua Obra é a ordem da imanência que se impõe… […]

Visto deste modo, o mistério manifesta-se no texto de Llansol sob múltiplas formas, figuras e «categorias». Enumero algumas:
Há o mistério da Figura, eternamente em metamorfose, sem morte;
– Há o mistério do encontro, no eterno retorno do mútuo e no seu paradoxo de ser confrontação e encontro, de gerar sempre outra coisa nova;
– Há o mistério do mundo, que é «o desconhecido que nos acompanha»;
– Há o mistério da metanoite, que é a noite obscura – mas não escura – da busca, do risco e da mutação;
– Há o mistério da cena fulgor, com um brilho súbito cuja origem se perdeu;
– Há o mistério do humano, de que não se conhece a essência, oscilando sempre entre os desastres do «gregarismo» e as insuficiências do rebelde e do eremita, figuras de um mistério promissor que não vingou (cf. «Diálogo com Llull»)...
E há sobretudo o mistério que nasce da liberdade livre da composição de uma escrita sem concessões, em que nada é impossível: é o mistério do incomum e do insólito, das volutas da imagem e das associações im-prováveis, da densidade do escrito e da leveza alada dos brancos e das suspensões dos traços. E tudo isto tem um lugar de origem, inacessível, esse sim, misterioso, só visível pelos seus reflexos na linguagem: o corpo que escreve. E ninguém sabe o que pode um corp' a 'screver.
    

21.5.17

AS FORMAS DO MISTÉRIO

«… Gostaria que sobrevivesse a afirmação de que nós somos epifanias do mistério…»
(M. G. Llansol, Lisboaleipzig)

No próximo sábado, dia 27 de Maio, pelas 16 horas, estaremos mais uma vez no MU.SA-Museu das Artes de Sintra, onde o artista plástico a. guerra santos («Adua») exporá desenhos a grafite feitos a partir de um diálogo com M. G. Llansol. 

a. guerra santos
Index secreto (...que o passado transporta consigo e que predestina à «salvação» para um presente certos momentos desse passado)

Trata-se de mais um encontro im-provável com a paisagem espiritual da Obra de Llansol, desta vez, e uma vez mais, com a Obra de um artista plástico, e pela senda de um substrato de espiritualidade sensível que atravessa ambos os universos, e que colocamos sob o signo do mistério. Um conceito e uma esfera do real que, contrariamente ao que se poderia pensar, servem igualmente as duas Obras e a sua busca de um caminho para a luz e o fulgor.
Disto se falará num diálogo a quatro, com o artista, a Professora Rita Benis (do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, Porto), Maria Etelvina Santos e João Barrento, do Espaço Llansol. E teremos, como sempre mais um «Caderno da Letra E» dedicado ao tema, com textos de M. G. Llansol e reproduções de obras de a. guerra santos.